Descrição

O que fazer com os fragmentos do que se quebrou? Como lidar com as memórias que preferíamos esquecer? O LUME Teatro apresenta o espetáculo “KINTSUGI, 100 memórias”, uma obra que funde o pessoal e o político em uma dramaturgia autoficcional e fragmentária. A montagem é fruto de uma colaboração instigante com o renomado diretor argentino Emilio García Wehbi e o dramaturgo Pedro Kosovski. A peça estreia no Teatro III do CCBB Rio de Janeiro dia 4 de março e fica em cartaz até 29 de março de 2026, com patrocínio do Banco do Brasil. O espetáculo segue para o CCBB Brasília na sequência.

 

Após temporada de sucesso em São Paulo e no CCBB Belo Horizonte, e passagens pelos mais importantes festivais de teatro do Brasil, além de apresentações em Portugal e Costa Rica, a peça, com dramaturgia assinada pelo diretor carioca Pedro Kosovski – vencedor dos principais prêmios de artes cênicas do país, enseja o retorno do Grupo LUME aos palcos cariocas após uma década,  trazendo mais um espetáculo com a marca do grupo de teatro com sede em Campinas (SP), fundado em 1985. Seu núcleo de atrizes e atores pesquisadores desenvolve trabalhos de referência nacional e internacional junto à UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), colaborando com o fomento à pesquisa da arte da atuação, com foco no desenvolvimento técnico e prático do ator. Tendo se apresentado em mais de 30 países, o LUME desenvolve, também, parcerias com coletivos, universidades, pensadores, mestres e artistas da cena mundial, o que levou o grupo a vencer o Prêmio Shell 2013 em pesquisa continuada. Em 2026, o LUME comemora 40 anos de sua fundação com a circulação do espetáculo “KINTSUGI, 100 memórias”, mantendo a marca do reconhecimento acadêmico, de público e da crítica especializada com seus espetáculos executados a partir de extensa pesquisa, levando para o teatro temáticas bastante relevantes e chamando a atenção para a reflexão com debates significativos que transformam a experiência teatral.

 

Segundo o ator Jesser de Souza, que integra o elenco, “a concepção do espetáculo parte da premissa do reconhecimento das fraturas, das rupturas inexoráveis da existência, sejam elas individuais ou coletivas (pessoais, de grupo, de país…). O ponto de partida da pesquisa foi o Mal de Alzheimer, mas o espetáculo expande a patologia para o campo social. Ao tratar o Alzheimer mais como metáfora do que como doença,  investigamos o esquecimento por opção: aquelas sombras que queremos deixar quietas; vasculhamos também, além do esquecimento provocado pela doença, o apagamento da memória como projeto e como isso se reflete na irracionalidade política do nosso país”, explica Jesser. “Reconhecimento e acolhimento são os primeiros passos para viabilizar a reparação, a reconstrução daquilo que um dia foi íntegro e cujos contornos se apresentavam bem delineados e intactos”, conclui o ator.

 

“O mal de Alzheimer foi o disparador do processo, que cobrou da equipe de criação ir além da doença, porque esta, é incurável e irreparável. As dinâmicas sociais e políticas (no micro e no macro) são passíveis de interferência, de restauração, de correção de rumo. Foi para este norte que miramos nossa bússola durante o processo de criação, iniciado em 2016, quando o país atravessava um momento sombrio e nossa frágil democracia – resgatada em 1985, ano de criação, coincidentemente, do LUME – era percebida à mercê de uma ruptura (cujos ecos ainda assombram) e caminhava em corda bamba”, afirma o dramaturgo  Pedro Kosovski.

 

A Beleza da Imperfeição

 

Kintsugi, filosoficamente, é “a beleza da imperfeição”, uma palavra japonesa que significa literalmente emenda com ouro. O título faz referência à técnica japonesa Kintsugi, que consiste em reparar cerâmicas quebradas com ouro, tornando a peça restaurada mais valiosa e resistente do que a original que não sofreu rupturas. A técnica, que dá nome à montagem, é evocada como metáfora logo na primeira ação da peça, quando os atores fazem um brinde e, em seguida, um vaso de cerâmica é estilhaçado no palco. Ação que cobra dos artistas do LUME uma tomada de posição: de que modo juntar os fragmentos daquilo que um dia representou um contorno estável que os uniu enquanto grupo de teatro, durante tantos anos? No palco, 100 objetos ou referências concretas servem de suporte para as memórias dos intérpretes, do grupo e da própria história do Brasil – da ditadura à atualidade – alguns deles: relíquias de família, fotografias, diários, uma coleção de moedas, revistas e peças de roupa.

 

Autoficção em cena

 

A condução de construção para o processo de pesquisa e desenvolvimento do espetáculo se deu após vários meses de estudo, em 2018 em que grupo de atores pesquisadores visitou a ala neurológica do Hospital das Clínicas da UNICAMP, onde o grupo conversou com especialistas, familiares e pacientes com demência. Em outro momento, com o espetáculo já montado, em cartaz, os atores viajaram para Angostura, na Colômbia, onde foi possível complementar estudos, pesquisas, ainda sobre a temática do Alzheimer   “Época em que o país mergulhava em um momento de apagamento histórico, obscurantismo e irracionalidades políticas”, contextualiza o ator Renato Ferracini.

 

O elenco convidou Emilio García Wehbi – diretor, performer e artista visual argentino, do grupo El Periférico de Objetos (1989), conhecido por suas investigações cênicas no cruzamento entre linguagens para colaborar com o processo de construção de cena deste novo projeto do LUME, levando em conta questões discutidas pela sociedade como: ações obscuras na política, ações manipuladas, (quando se dão pelo pela força de poderes , no caso do período da ditadura no Brasil), e lembranças que são guardadas, ignoradas ou apagadas (por força da doença de Alzheimer). Segundo o diretor Emilio García Wehbi, “o espetáculo não busca uma narrativa linear ou bucólica. Pelo contrário, é um exercício do presente: um reencontro com a dor como ato de superação e uma tentativa de corrigir o futuro ao encarar as fissuras do passado”, explica.

 

“Com o desafio de costurar e ficcionalizar as memórias pessoais do elenco com as memórias do próprio Grupo LUME (hoje, com 41 anos, e com 34 na época da estreia), com as memórias de um país à beira de um colapso institucional e democrático, com as memórias dos pacientes com Alzheimer (cujo processo de adoecimento acompanhamos ao longo de três anos) e com as memórias do próprio processo de criação – estas materializadas em objetos, cenas, narrativas e canções – nasceram os fios dessa trama ancorada no trinômio memória-esquecimento-apagamento, engenhosamente engendrados por Kosovski e potencializados pela encenação de Wehbi”, explica Raquel Scotti Hirson, atriz do espetáculo.

 

“As memórias apresentadas buscam revelar cicatrizes, escancarar fissuras, expor as imperfeições que nos constituem, promovendo, ao mesmo tempo, e em paralelo, sua reparação, iluminando-as, buscando acolhê-las e valorizá-las, compreendendo-as com fundantes de quem somos, como indivíduos, como coletivo, como país. Somente após deitarmos nosso olhar sobre a imperfeição, compreendendo-a e aceitando-a, é que podemos agir sobre ela, sem negá-la, mas restaurando-a, transformando-a em algo mais valioso que o perfeito que não experimentou a ruptura”, comenta Ana Cristina Colla, atriz do espetáculo.

 

O Poder da Música

 

O desenho sonoro, assinado por Janete El Haouli e José Augusto Mannis, desempenha um papel fundamental. Inspirados pela comprovação científica de que a música consegue driblar o hipocampo em pacientes com Alzheimer e acessar memórias perdidas, os músicos criaram um bordado sonoro. A partir de releituras dos Noturnos de Chopin, a paisagem sonora atua como uma fagulha para despertar lembranças tanto nos atores quanto no público, sobrepondo-se ao espetáculo como uma obra à parte, elevando mais ainda a energia de reflexão e condução do espectador para esse chamado a observar, contemplar.

 

“Durante nosso processo de pesquisa, tomamos conhecimento do poder da música na terapêutica de pacientes com Alzheimer. Grosso modo, poderíamos dizer que os pacientes acometidos com a doença perdem a capacidade de acessar as memórias, perdem as estratégias de busca das informações; é como se o caminho (ou a ponte que liga o desejo de lembrar e a lembrança propriamente) fosse subtraído, apagado, provocando desorientação, uma vez que as conexões neurais são destruídas. As músicas antigas e conhecidas – e que acionam afetos – driblam o hipocampo – primeira área do cérebro afetada pela enfermidade – ativando áreas emocionais e motoras, estimulando áreas cerebrais preservadas, promovendo o resgate da identidade, e conduzem os pacientes a uma (re)conexão pela via do afeto e da sensibilidade e não da memória concreta e objetiva”; é o que revelam, Janete El Haouli e José Augusto Mannis sobre o processo de pesquisa e concepção da trilha sonora do espetáculo.

 

Segundo Renato Ferracini, um dos quatro atores do espetáculo, “a música e a projeção acústica buscam criar pontes entre elenco e cada espectador, entre a autoficção apresentada e as memórias eventualmente revisitadas, criando um bordado sonoro, um vapor de som, com a potência de acordar, justamente, memórias. Juntamente com uma série de recursos eletroacústicos, manipulando timbres, criando colagens e sobreposições, explorando texturas que, em sintonia com a encenação, dramaturgia, interpretação e iluminação, buscam conduzir o espectador em uma jornada”.

 

Em última instância, “KINTSUGI, 100 memórias” é um gesto de resistência pela arte e por vários outros motivos: utopias que nos fazem seguir em frente”, define o dramaturgo Pedro Kosovski.

 

Ainda segundo ele, “a peça propõe uma utopia do mover-se, não estagnar: a vida é movimento; nesse sentido, acontece a restauração do desejo de estarmos juntos na diferença; no desejo da maior utopia que é do fazer teatral quebrar todas as barreiras possíveis, opor-se contra todas as barreiras possíveis, contra a falta de apoio, contra a falta de possibilidades, de visibilidade do poder do teatro, da arte em si. A arte é transformadora, e é nisso que o LUME acredita, buscando promover transformações durante todos esses anos através de suas obras. Há de se imaginar quantas pessoas, quantos públicos já foram impactados, chamados a refletir a partir dos espetáculos desse grupo. As marcas desses artistas, seus desejos manifestados no  seu fazer teatral já trazem histórias, que não por acaso, resultam num espetáculo construído também por escuta, por uma participação completa. Trata-se de uma dramaturgia de vivências e memórias, como se  o texto escrito em linhas invisíveis fossem as próprias falas do elenco”, conclui Kosovski.

 

SOBRE O LUME TEATRO

 

“… Trabalhar o ator é, sobretudo e antes de mais nada, preparar seu corpo não para que ele diga, mas para que ele permita dizer. A arte de ator é uma viagem para dentro de nós mesmos, um reatar contato com recantos secretos, esquecidos, com a memória. A verdadeira técnica da arte de ator é aquela que consegue esculpir o corpo e as ações físicas no tempo e no espaço, acordando memórias, dinamizando energias potenciais e humanas, tanto para o ator quanto para o espectador.” Luís Otávio Burnier (*1956 – †1985), fundador do LUME.

 

O LUME é um núcleo interdisciplinar de pesquisas teatrais da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e, ao mesmo tempo, é um coletivo de três atrizes, quatro atores e uma equipe técnica diversificada que se tornou referência internacional para artistas e pesquisadores no redimensionamento técnico e ético do ofício de ator. Um espaço de multiplicidade de visões que refletem as diferenças, impulsos e sonhos de cada um. Ao longo de mais de 40 anos, tornou-se conhecido em mais de 30 países, tendo atravessado quatro continentes, desenvolvendo parcerias especiais com mestres da cena artística nacional e mundial. Criou mais de 20 espetáculos e mantém 14 em repertório, com os quais

atinge públicos diversos de maneiras não-convencionais. Com sede no Distrito de Barão Geraldo, Campinas (SP), o grupo difunde sua arte e metodologia por meio de oficinas, demonstrações técnicas, intercâmbios de trabalho, projetos itinerantes, trocas culturais, assessorias, simpósios acadêmicos, reflexões teóricas e publicações de livros, que celebram o teatro como a arte do encontro.

 

Sobre o CCBB RJ

Inaugurado em 12 de outubro de 1989, o Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro marca o início do investimento do Banco do Brasil em cultura. Instalado em um edifício histórico, projetado pelo arquiteto do Império, Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, é um marco da revitalização do centro histórico da cidade do Rio de Janeiro. São 36 anos ampliando a conexão dos brasileiros com a cultura com uma programação relevante, diversa e regular nas áreas de artes visuais, artes cênicas, cinema, música e ideias. Quando a cultura gera conexão, ela inspira, sensibiliza, gera repertório, promove o pensamento crítico e tem o poder de impactar vidas. A cultura transforma o Brasil e os brasileiros e o CCBB promove o acesso às produções culturais nacionais e internacionais de maneira simples, inclusiva, com identificação e representatividade que celebram a pluralidade das manifestações culturais e a inovação que a sociedade manifesta. Acessível, contemporâneo, acolhedor, surpreendente: para tudo que você imaginar.

Ficha Técnica:

 

Patrocínio: Banco do Brasil

 

Criação: Ana Cristina Colla, Emilio García Wehbi, Jesser

de Souza, Pedro Kosovski, Raquel Scotti Hirson e Renato

Ferracini

Direção: Emilio García Wehbi

Dramaturgia: Pedro Kosovski

Atuação: Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel

Scotti Hirson e Renato Ferracini

Desenho sonoro: Janete El Haouli e José Augusto Mannis

Projeção acústica: José Augusto Mannis

Iluminação: Eduardo Albergaria

Orientação coreográfica: Jussara Miller

Audiovisual: Alessandro Soave e Marcel Vecchia / Gabi Perissinotto – Gama Visual

Design gráfico/Identidade visual/Fotografia: Arthur Amaral – Zumbido Cultural

 

Apoio e prestação de serviços técnicos: Giselle Bastos – Anoné Produções Artísticas

Supervisão de comunicação: Jesser de Souza

Revisão de textos: Diego Pansani

Tecnologia de informação/ Editor de redes sociais: Marcos Rogério Pereira

Comunicação, Planejamento de Redes Sociais e tráfego: Beatriz França e Letícia Leiva – Rizoma Comunicação & Arte

Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa

Coordenação de acessibilidade e comunicação acessível: Suellen Leal

Produção local (RJ): Amanda Dias Leite e Gabriel Muzzi

Executiva: Lais Machado – Aflorar Cultura

Direção de Produção: Cynthia Margareth – Aflorar Cultura

Co-produção: Anoné Produções Artísticas e Aflorar Cultura

Produção: LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais – UNICAMP

Realização: Governo do Brasil e Centro Cultural Banco do Brasil

 

EQUIPE INSTITUCIONAL LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais – UNICAMP
Atores Pesquisadores e Atores-Pesquisadores Colaboradores: Ana Cristina Colla, Carlos Simioni, Jesser de Souza, Naomi Silman, Raquel Scotti Hirson, Renato Ferracini e Ricardo Puccetti

Equipe Administrativa: Luciene Teixeira Maeno e Maria Estela Rafael Góes

Equipe de Produção: Cami Felice e  Letícia Abreu

Equipe de Comunicação:  Diego Pansani e Marcos Rogério Pereira
Audiovisual: Alessandro Soave
Arquivo: Regina Lucas
Bolsistas: Binho Signorelli, Dennisse Carolina, Elizalde Guerrero, Gabriela Bandeira Pereira e Joyce Dourado

Produção:Unicamp/COCEN/LUME Teatro

Fomento à Pesquisa: FAPESP e CNPq

 

Serviço:

“KINTSUGI, 100 memórias”

Temporada: 04 a 29 de março de 2026

Horário: De quarta a sábado, 19h / aos domingos, 18h

Local: CCBB RJ – Teatro III – 2º andar

Classificação indicativa: 14 anos | Duração: 120 min | Gênero: autoficção

 

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), disponíveis na bilheteria física e no site do CCBB – bb.com.br/cultura –

Meia-entrada para idosos, estudantes e demais beneficiários legais e no pagamento com cartões BB.

 

Sessões com Tradução em Libras:

 

Semana I: 07/03 (sábado)

 

Semana II: 13/03 (sexta-feira)

 

Semana III: 19/03 (quinta-feira)

 

Semana IV: 25/03 (quarta-feira)

 

Bate-papo com o elenco

“Sobre memórias, processos e singularidades”

Data: 14/03/2026 (sábado) – após a sessão do espetáculo

Local: Teatro III do CCBB-RJ

 

Palestra

“Presença, Corpo e Coletividade”, com Renato Ferracini

Data:  20/03/2026 (sexta-feira) – 15h

Serão disponibilizadas 90 vagas – Inscrições até o dia da atividade por ordem de chegada – vagas limitadas.

Local do evento: Teatro III do CCBB-RJ

 

Exibição do vídeo-desmontagem

“Eu me lembro: Flanando por KINTSUGI, 100 memórias”

Data: 27/03/2026 (sexta-feira) – 15h

A retirada de ingressos gratuitos 1 hora antes na bilheteria do teatro

Local do evento: Teatro III do CCBB-RJ

 

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro – RJ

Contato: 21 3808-2020 | [email protected]

Mais informações em bb.com.br/cultura

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Funcionamento CCBB RJ:

De quarta a segunda, das 9h às 20h (fecha às terças).